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26 maio, 2009

Ela pensou em seu trabalho, tudo o que estava estudando sobre pintura, fotografia e filosofia. Quando voltaria com o projeto de uma arte, estética, em locais obscuros de Belo Horizonte. Levar estes locais marginais, refeitos e elaborados, para os centros artísticos, uma visão cinza, um pensamento grande, que não passava de imaginação. Pensou no metrô, quando fica vazio, como ela poderia chamar alguém para fazer uma pintura. Uma pintura como aqueles desenhos que são usados na psicanálise, é por final colocar alguma máxima contra a própria analise, e ela, cabia somente o olhar, olhar aquele local e tirar sua essência, por meio da fotografia. Pensou que seria interessante, seu pensamento começou a vagar, por cantos, vielas, por lugares esteticamente opressores, onde não existe forma certa de continuar, mas o caminho, já estava sendo percorrido, mesmo que por meios turvos.
Resolveu não ir à psicanálise como disse para o namorado. Colocou uma jaqueta cinza e uma calça jeans. Saiu do seu apartamento, e depois foi direto para a garagem. De carro foi ao centro, no mercado central, comprou telas, pinceis e tintas diversas. Nunca havia pintado, mas lembrava que seu pai tentou ser um pintor, e tinha desenhos e pinturas feitas por ele, em toda a casa. Lembrou de tudo que havia acontecido quando estava na pré-adolescência, ser violentada, e ela não entender bem aquele sentimento, tudo que havia acontecido, disse a psicóloga nas primeiras sessões, que em certo momento achou ter gostado, achou ter nojo e raiva, e por isso sua mãe ter sido tão severa naquele momento, e depois muito mais tarde, ser tão liberal.
Ela se sentiu culpada comprando aquelas tintas, achava que deveria ter um mecanismo, que queria reviver aquele momento, mas não por gostar, era um estranho sadismo. Queria dizer isso a psicóloga, também quis dizer que a odiava, mas agora ela estava ali, no centro, com as telas e tintas na mão. Foi para o estacionamento do mercado central, colocou as bolsas na parte traseira do carro, voltou para o seu apartamento.
Não quis mexer naquele material, apenas deixou tudo escondido, jogado debaixo da cama. Pensou como era ruim morar sozinha, pensamentos pequenos, bobos, iam tomando forma, coisinhas se transformando, em algo com significado. Tentou não pensar em nada, ligou a tevê, passou por diversos canais, mas nada a entreteve, ficou esperando o namorado, ele deveria chegar naquela hora, como os dois haviam combinado.
Ela voltou ao seu quarto, pegou os pinceis, as tintas, as telas, começou a pintar a esmo, sem rumo sem técnica, somente ia pegando as corres e chorando, passou a mão na face, para limpar as lagrimas e começou a pintar com os dedos, as imagens iam mostrando pensamento, permeando uma matiz de raciocínio. A tela já estava com uma explosão de corres, foi quando ela ficou exausta, sentou na poltrona e olhou para a tela de longe. Todas as pinceladas. Todos aqueles toques. Ficou olhando, e da forma com que olhava fitou uma garotinha, que há muito tentou esquecer, olhou a si mesmo na tela, olhou seu pai, e o vermelho predominante na pintura, pegou do seu lado a câmera fotográfica, começou a olhar tudo novamente, aquela menina chorava, então pegou aquele momento com um click.
- Foi um evento catastrófico, você não teve culpa. As suas lembranças, ou a não lembrança é apenas uma dissociação. – Pensou tagarelando, para si mesma. – Não. A vitima é co-responsavel pela sua vitimação, por inocência. Não é isso, a culpa por inocência?
- Como pode dizer isso de uma garota de 11 anos. – disse, e se esgotou, jogou ao longe aquela pintura. Caiu em um choro convulso, mas levantou-se rapidamente e acabou tropeçou no tapete, caiu em cima de outras telas, se misturando a pintura, foi então para a cozinha, abriu a torneira e tentou se limpar, mas aquela tinta não saia, pegou um produto para limpar louças e colocou na mão, tentou novamente limpar, e a tinta continuava, ela já estava ficando cada vez mais tremula, como se o corpo fosse explodir. Olhou para todas aquelas facas, depois para o fogão. Sentiu um desanimo, uma falta de forças, e aquela água caindo e a chuva lá fora que não parava, que não era forte e nem fraca, somente estava caindo e caindo. Deu três passos a frente, e deixou o gás do fogão ligado. Apagou todas as luzes e foi para o seu quarto, deitou em um canto, olhou para os livros e sentiu uma dor ainda maior, ela somente sabia o que não queria sentir, levantou como em um espasmo e apagou a luz, que encobriu com escuridão todo o quarto, não suportava mais. Voltou para o canto do seu quarto e ficou, não havia mais lagrimas.
O gás mais pesado que o ar, ficou se espreitando no chão, tornando mais denso, sem cheiro e invisível, rastejando pela cozinha, encontrando o banheiro, passando pela sala, até encontrar o quarto dela.

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