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04 outubro, 2011

Era terça-feira, manhã nublada; cinza e muito fria. A maioria das pessoas seguiam sua trajetória para mais um dia de labuta, pegavam ônibus, metrô e alguns caminhavam com uma estranha rapidez, os olhos virados para a calcada, nos ouvidos: seus fones particulares, ora de música, ora de telefone. Distante, no outro lugar da cidade, no suburbio, ele levantava da cama depois de mais uma noite acordado - sim, a insonia havia lhe visitado naquela madrugada - calçou seu sapato, vestiu sua jaqueta marcada por manchas de tempo, arrumou um cachicol, um gorro, pegou sua bolsa e desceu as escadas, os interminaveis 87 degraus que o levariam para  rua, embora cheia, lhe fosse vazia. Fechou o portão e procurou em sua bolsa o seu maço de cigarros, interminavel busca para encontrarar o maço vazio. Resolveu caminhar sem fumar, o que lhe apetecia. Parou em um café, na esquina de sua rua, sentou, tomou seu café, sua água e comprou seus cigarros. Fumou. Uma mistura de sensações lhe passavam pelo corpo, explodiu em lagrimas, ali mesmo, sentado na mesa do café. Ninguém entendeu. Nem sequer  ele mesmo. Ainda recompondo-se, saiu. Passou o dia inteiro caminhando, sem destino, sem objetivo, sem saber para onde ir, em algumas ocasiões com vontade de se jogar na frente de um carro, mas passava logo em seguida que o semaforo lhe permitira atravessar. No final do dia, entrou em um bar jamais visto por ele, sentou, tirou da bolsa seu Baudelaire, pediu uma dose de uisque, de longe, parecia mais uma daquelas pinturas de Bernard, mas de perto não chegava a nenhuma obra de arte. Ele avistava de fora, todas aquelas pessoas reunidas dentro do bar, rindo e brindando, pelo vidro ele testemunhava a vida alheia, e tentava em seguida, traçar trajetórias sore elas. Virou sua dose . Entrou no bar, seguiu para o balcão. Pediu outra dose. Traçou personagens imaginaveis, imaginou os casais ali presentes fazendo sexo, olhou para a tv: passava futebol. Acho a vida ridicula, chorou. Virou sua dose. Pegou o jornal, leu a notícia do dia, descobriu que a economia não ia nada bem, mas estavam esperançosos com uma mudança. Grifou as palavras: nada e bem. Pediu outra dose. Enquanto o garçom a servia, foi ao banheiro. Sentou no chão. Chorou. Da bolsa tirou um pedaço de papel e escreveu: "Para alguns a vida é (in)superável." Pregou o papel no espelho. Voltou para o balcão. Virou sua dose. Pediu a conta. Pagou. Saiu, atravessou a rua sem vontade de olhar se o semaforo lhe permitiria. Estava fechado para ele.

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