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02 janeiro, 2012

Já não sei quando morri. Sempre me pareceu ter morrido velho, por volta dos noventa anos, e que anos, é que meu corpo dava provas disso, da cabeça aos pés. Mas esta noite, sozinho em minha cama gelada, sinto que vou ser mais velho do que o dia, a noite, em que o céu com todas as suas luzes caiu sobre mim, o mesmo que eu tento olhar, desde que errava sobre a terra distante. Pois tenho medo demais esta noite para me escutar apodrecer, para esperar as grandes quedas vermelhas do coração, as torções do cego sem saída, e que se realizem em minha cabeça os longos assassinatos, o assalto aos pilares inabaláveis, o amor com os cadáveres. Vou portanto me contar uma história, vou portanto tentar me contar uma história para tentar me acalmar, e é ai que eu sinto que serei velho, velho, mas velho ainda do que no dia em que caí, pedindo socorro, e que o socorro não veio. Ou será possível que nesta história eu tenha retornado à terra depois de minha morte? Não, isso não é de meu feitio, retornar à terra, depois de minha morte.

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