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21 abril, 2009

alter ego.

Naquele tempo, a vida passava devagar e ele podia ver bem pela sua janela o crepusculo que era formado por mais um dia que insistia em terminar, a sua inutilidade era notavel pela sua aparência: levava na face uma barba por fazer, e atrás daquelas lentes divergentes, um olhar cansado. Cansado das suas andaças pelo apartamento, dos seus pensamentos pesados e da tosse intoleravel causada pelo excesso de nicotina. Ele não saia muito, seus afazeres eram poucos, como comprar pão a cada três dias, ou buscar o noticiario que todas as manhãs o carteiro depositava. Da simplicidade ele carregava uma grande culpa, e talvez a culpa de não tolerar mais a simplicidade, ou quem sabe a culpa de não saber mais o que carregava. O engraçado é a forma que as coisas foram acontecendo, ele tinha tudo pra ser um sujeito daqueles: "o orgulho da mãe", mas a vida não o quis assim, e ele aceitava isso de uma forma muito passiva. Formou-se muito cedo em jornalismo pela UFMG, com seus 21 anos quase bem vividos, depois de formado, dedicou-se a arte e a cultura, tinha todo seu tempo convertido em escrever pecas para teatro e roteiros para possiveis longas, passava noites discutindo a teoria do teatro do absurdo, e filosofando sobre o nada, que para ele sempre teve um principio no tudo. Era um sujeito rodeado de amigos, chegava nos locais e esbanjava simpatia, mesmo que ele não lembrasse sequer o nome de quem o apresentara. Foi chamado algumas vezes para escrever para o jornal local, estava começando a se apresentar verdadeiramente como um jornalista, e como todo jornalista ele era ligado na política, e na de esquerda; um marxista convicto, daqueles chatos mesmo... péssima escolha para aquela época de fervor vivida pela país, o famoso golpe militar de 64. Temendo os movimentos de esquerda crescendo e pela influência da propaganda pelos movimentos igualitários, observando ainda que a população brasileira, mais humilde, iniciava um movimento em direção à esquerda, a elite brasileira e a classe média começaram a temer o rápido avanço do chamado, por alguns extremistas da direita: "perigo vermelho" e de perigoso talvez ele só tivesse o carro que demorava para funcionar. Diante dessas lembranças, ele vive hoje, um dia de cada vez, uns o chamam de louco, misantropo, ezquisofrenico... Eu também não sei defini-lo, mas usarei aqui, trechos de algumas cartas suas escritas ainda quando estava preso: "Eu conheço mal as mulheres. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias (...) O que se chama amor é o exílio, com um cartão postal da terra natal de vez em quando, foi esse meu sentimento"

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