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18 outubro, 2009

Eles se conhecerem sem querer, em uma dessas casas de show. Ele, Márcio, 25, um cara que ostentava na face uma cicatriz de uma aventura que havia feito nos seus dezoito anos, era audacioso e intenso, e por isso, um irresponsável nato, tinha a mania de sempre fazer e falar tudo que vinha na cabeça, mostrava-se inteiro, com ele não tinha meio-termo, era completo, sem amarras. Vinicius, era assim também como Márcio, a única diferença, talvez fosse na medida, Vinicius era completamente sábio: sabia o que tava fazendo, por mais que fosse intenso, carregava na sua intensidade uma boa dose de desconfiança, o que sempre lhe fazia pensar a respeito das coisas, era também audacioso, talvez até mais que Márcio, Vínicius objetivizava e corria atrás, era forte. Talvez por causa dessa diferente semelhança, eles tenham se dado tão bem. Um completava o outro de maneira distinta. O mais engraçado foi como as coisas aconteceram, o encontro, as poucas palavras que trocaram, e então, a certeza de que aquilo os marcaria pra sempre. Márcio, trajava uma calça jean rasgada nos joelhos, um all star preto, e uma blusa branca com um trecho da letra de Let it be, dos Beatles, estampada. Ele esperava no balção a sua bebida: uma long neck. Enquanto isso, conversava com o rapaz ao seu lado, um jovem magro e desengonçado que bebida tranqüilamente sua vodk com energético. Depois de um tempo, ao chegar sua cerveja, Márcio despediu-se do seu mais novo amigo, e virou-se para dirigir-se à pista de dança, caminhando esquivava-se para não esbarrar a chama do seu cigarro em alguém, ia se curvando e fazendo acrobacias, tudo para evitar qualquer dano, não com os outros, mas o cigarro - era o último - Foi na excessiva concentração que sem querer, ele esbarrou nele, em Vínicius. A chama lhe tocou o ombro esquerdo, que estava descoberto. É incrível como são os impulsos, de imediato, ao sentir o calor do cigarro tocando-lhe, levou diretamente a mão ao ombro, cobrindo, esfregando, e então, berrando a dor que sentirá, uma dor que arde, é assim que funciona as queimaduras. Márcio não sabia o que dizer, talvez o de sempre: "Desculpa ai, irmão!"; "foi sem querer, meu chapa." Ele não disse nada, ficou parado, revezando os olhos entre Vinicius e o cigarro. Ao se virar, Vinicius olhou-o com um olhar de repugnância, de superioridade:
Márcio, estendendo a mão que segurava a cerveja, lhe disse:
-bebe ai, cara
-como assim?! bebe ai?! você é louco?!
-é minha maneira vulgar de lhe pedir desculpas
-vulgar?! e como seria a formal?
-você não vai querer conhecer.
Vinicius pegou a cerveja, deu um gole, devolveu e sorriu. Márcio sorriu também e deu-lhe um tapinha nas costas, voltando a fazer sua caminhada até à pista de dança. Durante a noite, tocaram sons elétricos e efusivos, Márcio dançava frenético, como se aquela fosse a última vez que pudesse sentir suas pernas, como se fosse, talvez, a sua última noite em vida. Era exagerado, fazia acrobacias, berrava... o que fez Vinicius observá-lo, quase que o tempo todo. Era uma aquarela, uma arte, ele queria juntar-se a ele, dançar e gritar também, e quem sabe, lhe oferecer um drink, mas resolveu permanecer observando, de canto de olho, escorrado em uma das pilastras que sustentava todo aquele ambiente.
Márcio parou um pouco sua apresentação-sola-de-dança, e foi até o banheiro, cambaleando, trocando pernas por palavras, chegou exausto, e deparou-se com Vinicius, esperando seu momento para dar uma mijada:
Ele sorriu e perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele movimentou-se para o lado dele e disse:
- Então eu vou com você.
Se abraçaram, trocaram olhares e se beijaram, outra vez, como uma queimadura: quente, forte e sem pedir.
Vinícius segurou o rosto que junto com ele, vinha a cicatriz e aquela barba mal-feita e rala de Márcio,e perguntou:
-é essa sua maneira formal?!
Márcio sorriu, e lhe apertou as bochechas
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
Mijaram juntos, na mesma privada, sentindo as pequenas gotas que rebatiam em suas coxas, riram desse momento, se abracaram, ainda com ambas calças no pé, trocaram a última gota do mijo, se tocaram com delicadeza e suavidade, vestiram-se e foram, então, juntos para aquela pista de dança, que agora, tocava I Get Around, do Beach boys...

3 comentários:

  1. tu escreve M U I T O bem.

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  2. hmmmmmm, sua apaixonada por suas palavras, seria tudo isso auto-biografico?

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  3. O acaso faz o caso!
    Migs adorei...
    Estou a espera de seu livro!

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